O campo brasileiro é marcado por gigantes. Soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão, as cinco principais culturas do país, ocupam milhões de hectares e sustentam pilares estratégicos da economia nacional. Mas, entre essas lavouras que abastecem o Brasil e diferentes mercados internacionais, existe outro universo rural, mais discreto, embora igualmente relevante: o das culturas de nicho, especializadas, que atendem segmentos como gastronomia, jardinagem e decoração.
Nesse cenário, produtoras como Maria Lúcia Nogueira Lourenço, da Morro Agudo Hortaliças Especiais, sediada em Bom Sucesso, na cidade de Teresópolis (RJ), encontraram um caminho sólido para prosperar. Há três décadas na lavoura, ela e o marido começaram cultivando alimentos tradicionais, como brócolis e alface. Mas foi ao investir em flores comestíveis, há cinco anos, que o negócio floresceu — literalmente. “No início, colhíamos 20 potinhos e vendíamos 10. Não havia mercado. Mesmo assim, não desistimos”, recorda. A persistência transformou a atividade: hoje, Maria Lúcia cultiva mais de dez tipos de flores comestíveis — como amor-perfeito, capuchinha, tagete, cravina e rosas — e se consolidou como uma das principais produtoras do Rio de Janeiro. Seus clientes são restaurantes e chefs que buscam cores, texturas e aromas únicos para a alta gastronomia. “Trabalhamos com tudo que é diferente, buscando sempre inovar na produção”, resume a agricultora.
Assim como Maria Lúcia, o engenheiro agrônomo William R. Hannemann, da empresa Bela Flor Plantas, de Campo Largo (PR), também apostou em uma cultura pouco convencional: o cultivo de plantas ornamentais. O negócio, que surgiu de uma necessidade familiar, evoluiu até se tornar uma referência em qualidade. “O conhecimento foi a maior dificuldade no início — aprender o que cada espécie precisa, entender as pragas, o manejo, o substrato. Hoje, temos duas unidades: uma para mudas e outra para a produção de vasos e cuias”, explica. A empresa, com 20 anos de atuação, atende principalmente prefeituras e grandes lojas de jardinagem, os chamados garden centers.
No Oeste do Paraná, em Maripá, outra história mostra como culturas ornamentais também podem impulsionar economias locais. À frente do Orquidário Maripá & Cia Ltda, o produtor Elemar Stibbe iniciou o cultivo de orquídeas a partir de uma demanda gerada por um projeto do próprio município, que incentivou a ornamentação de ruas e praças com a planta. “Com o tempo, as orquídeas foram crescendo, ficaram bonitas e começaram a atrair visitantes. As pessoas vinham à cidade e queriam comprar mudas, mas não existia nenhum produtor aqui”, conta. O início foi modesto, no fundo do quintal, enfrentando dificuldades técnicas, financeiras e de infraestrutura. Hoje, após mais de 25 anos de trajetória, o cultivo ocupa uma área de 27 mil metros quadrados. O produtor cultiva espécies nativas e exóticas, trabalha com mudas clonadas de maior valor comercial e vende para todo o Brasil pela internet.
Já uma cultura pouco conhecida, mas cheia de tradição, resiste no interior de São Paulo. Em Guatapará, a produção da raiz-de-lótus (renkon) atravessa gerações desde antes da década de 1970. Masaharu Takagi assumiu o cultivo em 2012, após o falecimento do sogro, e decidiu manter viva uma atividade histórica do município. “Não posso deixar isso acabar. Esse cultivo faz parte da identidade da cidade”, afirma. Plantada em áreas alagadas, a raiz-de-lótus exige manejo totalmente manual, desde o plantio até a colheita, feita com jatos d’água para evitar danos ao produto. Da planta, praticamente nada se perde. Dos talos, por exemplo, podem ser extraídas fibras internas que dão origem a fios semelhantes ao fio de seda. As folhas grandes e verdes podem ser secas para a produção de chá, conhecido por suas propriedades medicinais e benefícios à saúde humana. Já as sementes são comestíveis, assim como a raiz - principal razão do cultivo da planta. Apesar de toda essa versatilidade, a flor-de-lótus em si tem baixa durabilidade, o que dificulta a comercialização. Ainda assim, sua estética singular mantém a demanda em nichos específicos. Atualmente, a produção de Masaharu Takagi ocupa cerca de um hectare por ano e abastece principalmente a comunidade asiática no estado de São Paulo, rendendo uma produção de 50 a 60 caixas.
Parceria para crescer
Dados da safra 2025/2026 mostram que, especificamente nas atividades relacionadas ao plantio de flores e similares, os números consolidados do Sicredi para os estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro totalizam mais de R$ 16,8 milhões movimentados. “Esses produtores representam a força da diversidade no campo. Cada investimento feito nessas atividades contribuiu para fortalecer cadeias produtivas locais, gerar renda e ampliar o desenvolvimento regional. É o tipo de crescimento que o cooperativismo acredita e apoia”, destaca o gerente de Desenvolvimento de Negócios da Central Sicredi PR/SP/RJ, Gilson Farias.
Esses exemplos mostram que, no agronegócio brasileiro, há espaço para muito além das grandes commodities. E, para que pequenos e médios produtores consigam investir, inovar e se manter competitivos, o apoio financeiro adequado faz a diferença.
É nesse contexto que o papel das cooperativas ganha força, como explica Thaísa Carla dos Reis Aguiar, gerente de Negócios Agro da agência Sicredi de Teresópolis, que atende Maria Lúcia: “Apoiamos o pequeno produtor com orientação, crédito consciente e soluções personalizadas, ajudando-o a crescer de forma sustentável e com propósito.”
Entre as mais de 300 soluções oferecidas pela instituição financeira cooperativa, há linhas de crédito específicas para o campo, como o crédito de custeio, o Proagro — com cobertura de seguro — e os investimentos via BNDES, voltados para quem deseja construir estufas, adquirir equipamentos ou ampliar a produção. Foi com esse tipo de suporte que Maria Lúcia conseguiu investir em cultivo protegido, automatizar irrigação e adubação e transformar o negócio familiar em uma referência estadual. “A Maria Lúcia é um grande exemplo disso. Ela confiou no Sicredi, e hoje tudo é resolvido com visitas e mensagens — sem precisar ir à agência. Esse relacionamento próximo é o que faz a diferença”, observa Thaísa.
Do alimento ao ornamento, das flores comestíveis às orquídeas e à raiz de lótus, histórias como as de Maria Lúcia, William, Elemar e Masaharu mostram que o agronegócio brasileiro é diverso, resiliente e pulsante. Pequenas culturas, quando bem cuidadas, também podem gerar grandes resultados — e colorir o futuro da agricultura nacional com novas possibilidades.
Sobre o Sicredi
O Sicredi é uma instituição financeira cooperativa comprometida com o crescimento de seus associados e com o desenvolvimento das regiões onde atua. Possui um modelo de gestão que valoriza a participação dos mais de 10 milhões de associados, que exercem o papel de donos do negócio. Com mais de 3,1 mil agências, o Sicredi está presente fisicamente em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal, disponibilizando uma gama completa de soluções financeiras e não financeiras.
