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Rodovias viram rota para contrabando do “Monjauro do Paraguai” que abastece comércio clandestino pela internet

Maior parte das apreensões de canetas emagrecedoras do Paraguai em SC ocorreu na BR-101, conforme dados da PRF

Rodovias viram rota para contrabando do “Monjauro do Paraguai” que abastece comércio clandestino pela internet
Foto: Divulgação

Do Paraguai para o Extremo-Oeste, do Extremo-Oeste para o Sul catarinense. Essa é a rota que os remédios com ativos usados para o tratamento de obesidade, mais conhecidos como canetas emagrecedoras, passam até chegar aos sites clandestinos na internet ou, ainda, seguir viagem rumo ao Rio Grande do Sul. Somente em 2026, foram 1.174 unidades de ampolas, frascos ou seringas desse tipo de remédio apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em rodovias catarinenses.

Ao todo, foram 15 apreensões registradas entre janeiro e agosto deste ano. A rodovia com mais ampolas apreendidas durante o período foi a BR-101, uma das principais rodovias do Brasil, que passa por 12 estados brasileiros, incluindo Santa Catarina, e registra grande volume de carregamento de cargas pelo país inteiro.

Só no trecho catarinense da rodovia, foram nove apreensões, o que corresponde a 60% das ocorrências. Para se ter uma ideia, somente nessas ocorrências, a PRF encontrou 821 ampolas de Tirzepatida, comercializadas no Brasil com o nome de Mounjaro e indicada pra melhorar o controle glicêmico de adultos com diabetes mellitus tipo 2, assim como para obesidade, associado a dieta e atividade física.

Na BR-101, a maioria das apreensões aconteceu em Joinville, no Norte catarinense, com apenas uma sendo registrada em Itajaí, no Litoral Norte. Além da Tizerpatida, também foram encontradas ampolas de Lipoless, um medicamento injetável à base de tirzepatida, fabricado no Paraguai, que ficou popularmente conhecido no Brasil como o “Mounjaro paraguaio”.

De acordo com a PRF, a origem das cargas é a Ciudad del Este, a segunda maior cidade do Paraguai e o principal polo de turismo de compras da América do Sul. A partir dela, grandes centros viram destino para a carga, como Joinville, Itajaí, Balneário Camboriú e Florianópolis.

“Algumas cargas descem mais para o Sul, em direção a Porto Alegre, e outras cargas ficam aqui pelo Estado para serem vendidas pela internet em sites e farmácias clandestinas para venda online”, explicou o chefe do Núcleo de Comunicação da PRF em SC, Adriano Fiamoncini.

BR-470, 163, 280 e 281: a rota das canetas para além da BR-101 em SC

A polícia também abordou motoristas com cargas de remédios emagrecedores em outras cinco rodovias que passam por Santa Catarina. Entre eles, também estavam seringas de Semaglix.

As cargas foram encontradas em:

  • BR-470, em Ponte Alta;

  • BR-163, em Guaraciaba;

  • BR-280, em Canoinhas;

  • BR-480, em Chapecó;

  • BR-282, em Maravilha.

O mês em que mais foram registradas apreensões foi janeiro, com seis cargas encontradas nas rodovias catarinenses.

Anvisa desmentiu informação de que canetas do Paraguai são eficazes

Diante do aumento das apreensões em relação ao “Mounjaro do Paraguai”, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desmentiu informações que circulavam pela internet, em julho, sobre as canetas contrabandeadas terem a mesma eficácia dos produtos registrados no Brasil.

A Anvisa explica que são necessários testes específicos para assegurar concentrações com características idênticas às canetas autorizadas no Brasil. Também é preciso avaliar como o produto é absorvido pelo corpo, qual a concentração que atinge na corrente sanguínea e quanto tempo leva para ser eliminado.

Para além disso, a Anvisa afirmou que é necessário que o estudo seja feito em um centro de bioequivalência credenciado, que tem a responsabilidade de avaliar as etapas clínicas, analíticas e estatísticas do estudo. Foram realizados, por enquanto, testes de presença, concentração e estrutura molecular do princípio ativo tirzepatida em medicamentos contrabandeados, no Centro de Informação e Assistência Toxicológica da Unicamp (CIATox). No entanto, a CIATox não é um centro de bioequivalência credenciado no Brasil.

A Unicamp também já realizou testes com os medicamentos contrabandeados e detectou o princípio ativo nos frascos. Mesmo assim, não é possível afirmar que o produto que vem do Paraguai e o que é vendido de forma legalizada no Brasil são equivalentes, já que não foram feitas análises de impurezas, contaminantes, degradação do produto, esterilidade ou presença de metais pesados.

No Brasil, as canetas emagrecedoras vendidas de forma legal movimentam entre R$ 10 bilhões e R$ 13,3 bilhões no mercado nacional.

Quais os riscos das canetas emagrecedoras do Paraguai?

Utilizar canetas emagrecedoras contrabandeadas do Paraguai pode causar graves riscos à saúde. O especialista em Fisiologia de Órgãos e Sistemas, com atuação em Fisiologia Endócrina e do Pâncreas, Alex Rafacho, afirmou que o principal problema dos medicamentos adquiridos fora dos canais regulares é que não há garantia de que o conteúdo da caneta corresponda ao descrito no rótulo.

“Podem existir diferenças na quantidade do princípio ativo, na presença de impurezas ou de produtos de degradação e, por se tratar de um medicamento injetável, falhas de esterilidade e contaminação microbiológica”, afirmou.

O especialista também citou um posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), que relatou que análises de produtos provenientes do Paraguai identificaram variações significativas na concentração de tirzepatida.

“Em uma das amostras, a concentração foi aproximadamente 60% superior à indicada no rótulo. Isso significa que uma pessoa pode acreditar que está aplicando uma determinada dose e, na verdade, receber uma quantidade substancialmente maior”, destacou.

O armazenamento também é uma questão importante. O calor excessivo, congelamento ou o transporte inadequado podem comprometer as moléculas presentes nos medicamentos. Visivelmente, ela não possui alterações, mas não é possível garantir a eficácia ou a segurança da caneta.

“As consequências podem variar desde a ausência ou redução do efeito esperado, passando por náuseas, vômitos e outros efeitos de uma dose excessiva, até complicações mais importantes. Se houver falha de esterilidade, acrescenta-se ainda o risco de infecção local e, em situações graves, de infecção sistêmica”, ressaltou o especialista.

Apesar de não ser possível identificar a falsificação na substância, Rafacho citou as recomendações da Anvisa sobre a necessidade de se ter atenção a embalagens rasuradas ou alteradas, erros de grafia, rótulos ou dispositivos diferentes daqueles registrados no Brasil, números de lote ou de série inconsistentes, apresentação em idioma estrangeiro e preços muito inferiores aos praticados no mercado regular.

Além disso, o consumidor também deve ter atenção aos produtos vendidos fora de farmácias, principalmente nas redes sociais, grupos de mensagens ou intermediários.

“Use semaglutida, tirzepatida e medicamentos semelhantes apenas com prescrição e acompanhamento médico, preferencialmente adquiridos em farmácias regularizadas e com registro na Anvisa. Evite produtos de procedência duvidosa ou cuja conservação não possa ser comprovada, e não ajuste a dose por conta própria. Em caso de efeitos adversos intensos ou persistentes, especialmente dor abdominal intensa, vômitos repetidos ou sinais de desidratação, procure atendimento médico”, ressaltou o especialista.

NSC

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