Durante a semana trabalho, terapia, aula. Aos fins de semana, descansar e sair com os amigos. Esta é a rotina de Emanuelle Aguiar de Araújo, a quem todos chamam de Manu.
A rotina coloca à prova uma previsão feita por um médico para a mãe da jovem, quando Manu tinha apenas um ano e foi diagnosticada com paralisia cerebral.
Moradora de Matinhos, no litoral, Manu é a primeira estudante com paralisia cerebral a se formar pelo Setor Litoral da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e a segunda de toda a instituição.
Aos 29 anos, ela assinou o diploma de Licenciatura em Geografia no último dia 20 de setembro. A data de recebimento do documento foi definida como "simbólica" pela jovem, por ser um dia antes do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência.
A jovem explica que, por conta da paralisia cerebral, ela tem mobilidade reduzida, espasmos involuntários e dificuldade na fala. Porém nenhum destes aspectos impediram Manu de alcançar sonhos: esta é a segunda graduação dela, que também é formada em Gestão de Recursos Humanos por uma universidade privada.
Educação
Manu completou idade para entrar na escola na mesma época em que foi aprovada a Lei nº 9.394/1996, que institui que é dever do Estado garantir "atendimento educacional especializado e gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino".
Adriana conta que, na época, foi incentivada por funcionários da Apae a matricular a filha no ensino regular, para que Manu continuasse se desenvolvendo e tivesse contato com outras crianças.
Segundo Adriana, a decisão deu origem a uma saga: ela conta que passou por duas escolas municipais e uma particular que afirmaram que não poderiam receber Manu porque "não estavam preparadas para receber uma criança assim".
Frustrada com as respostas negativas, a mãe mudou a estratégia: só contou que a filha tinha paralisia cerebral após confirmar a disponibilidade da vaga.
"A diretora da época disse 'traz ela e a gente vê o que a gente faz'", relembra Adriana.
De acordo com a mãe, até o segundo ano tudo ocorreu bem, apesar de a filha ter dificuldades para escrever, ela foi alfabetizada e aprendia no mesmo ritmo de outros alunos da turma.
'Resistência'
Adriana conta que ao chegar no terceiro ano, Manu enfrentou resistência de uma professora.
Manu teve que repetir o ano escolar e trocou de professora. A mãe conta que a nova educadora chegou a questionar o porquê da criança ter reprovado, uma vez que sabia todo o conteúdo que estava sendo ensinado.
Mais tarde, durante a graduação de geografia, Manu lembra que encontrou obstáculos logo na primeira semana de aula. Ela conta que as aulas do curso eram lecionadas em salas do terceiro andar do prédio da instituição e por conta da mobilidade reduzida, a jovem dependia do elevador para chegar até as salas.
Entretanto, no segundo dia de aula o elevador parou de funcionar.
"Esse elevador ficou quase 70 dias parado, o que causou um transtorno muito grande para todos os estudantes. A minha turma, por exemplo, ficou muito tempo tendo aulas no auditório, que não é um lugar preparado para ter aulas", relembra Manu.
Ela cita que durante a graduação também precisou de adaptações avaliativas e que faltou preparo dos professores para atender alunos com deficiência.
"Foi difícil, porque infelizmente os professores não estão preparados para atender um estudante que tenha uma necessidade educacional especial, que tenha uma deficiência. Então os acessos dentro da educação foram complicados", relata.
Ações da universidade
De acordo com a Universidade Federal do Paraná, além de Manu, em 2003 outra estudante com a mesma condição se formou em pedagogia.
A instituição disse que possui uma série de ações afirmativas para a inclusão de pessoas com deficiência no ensino superior, entre elas, para o ingresso, por meio de acessibilidade no processo seletivo, cotas e vagas suplementares exclusivas.
Há também ações que visam a permanência de pessoas com deficiência na universidade, por meio de atendimento educacional especializado, atendimento psicológico, reuniões de orientação, disponibilidade de tutores, entre outras.
'Ser exemplo'
Manu conta que a força para seguir em frente veio por meio do apoio da família e amigos, que a ajudaram a conquistar os espaços que ocupa hoje.
Para ela, compartilhar conhecimento é o caminho para mudar o mundo, missão que assumiu.