Uma figura histórica que atravessa séculos e tradições religiosas voltou ao centro do debate público após o envio de um projeto de lei que propõe criar um novo feriado estadual no dia 25 de novembro em Santa Catarina. Santa Catarina de Alexandria, que dá nome ao estado, é conhecida pela tradição cristã como uma jovem intelectual que teria enfrentado perseguições religiosas e se tornado mártir no início do século IV.
Segundo registros históricos e relatos hagiográficos, Catarina teria nascido em Alexandria, no Egito, no ano de 287 d.C., em uma família nobre e recebido educação avançada em filosofia e ciências, algo incomum para mulheres da época. A tradição aponta que ela se converteu ao cristianismo ainda jovem e passou a defender publicamente a fé durante o período de perseguições promovidas por autoridades romanas.
Relatos religiosos afirmam que a jovem teria enfrentado o próprio imperador ao recusar renunciar à fé e rejeitar propostas de casamento. Em um dos episódios mais conhecidos da tradição cristã, ela teria debatido com dezenas de filósofos pagãos convidados para convencê-la a abandonar o cristianismo, mas acabou convertendo parte deles.
A narrativa também aponta que foi condenada à morte após resistir às pressões políticas e religiosas. A tradição cristã relata que a execução ocorreu por decapitação, depois que um instrumento de tortura conhecido como “roda” teria se quebrado durante a tentativa de punição, em 305 d.C., quando tinha 18 anos. Por esse motivo, a santa costuma ser representada com a roda e a espada em pinturas e esculturas religiosas (veja a imagem abaixo).
Além da história de vida, Catarina de Alexandria também ficou associada a relatos de milagres e episódios considerados extraordinários pela tradição cristã. Entre eles estão visões religiosas, conversões atribuídas à sua influência e a crença popular de que seu túmulo teria propriedades curativas. Com o passar dos séculos, tornou-se uma das santas mais populares da Idade Média, sendo invocada especialmente por estudantes, professores e filósofos.
Reconhecimento da Igreja Católica
A Igreja Católica reconhece Santa Catarina como mártir e mantém a celebração litúrgica no dia 25 de novembro, data tradicionalmente dedicada a ela. Embora não exista um processo formal de canonização nos moldes atuais — já que viveu antes da criação desses procedimentos —, sua veneração foi consolidada ao longo dos séculos e incluída oficialmente no calendário religioso.
O nome de batismo do estado tem origem nas primeiras expedições europeias que passaram pelo Litoral Sul do Brasil no século XVI. Registros históricos indicam que o navegador italiano Sebastião Caboto, a serviço da Espanha, esteve na região por volta de 1526 e teria batizado a ilha — atual Florianópolis — em homenagem a Santa Catarina de Alexandria, prática comum entre exploradores da época, que costumavam usar nomes de santos e datas religiosas para identificar novos territórios.
Com o avanço da colonização portuguesa e a organização administrativa da região, a denominação inicialmente associada à ilha passou a designar toda a capitania e, posteriormente, o estado. Ao longo dos séculos, Santa Catarina de Alexandria também foi consolidada como padroeira catarinense e segue sendo lembrada em celebrações religiosas e culturais, especialmente no dia 25 de novembro, quando comunidades realizam missas, procissões e eventos tradicionais.
Projeto de feriado
O projeto de lei que pretende instituir o dia 25 de novembro como feriado estadual em Santa Catarina atribui à data um caráter histórico, cultural e cívico. O texto foi enviado recentemente pelo governador Jorginho Mello (PL) à Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc).
“O dia 25 de novembro é tradicionalmente dedicado a Santa Catarina de Alexandria, figura histórica de grande relevância na tradição cristã, amplamente reconhecida como símbolo de sabedoria, fé e coragem. Foi justamente nessa data que o território catarinense passou a ser denominado Santa Catarina, designação que se consolidou ao longo do processo histórico e que, posteriormente, deu origem ao nome do atual Estado”, diz um trecho.
A proposta vem provocando reações, principalmente entre representantes do setor empresarial catarinense. O documento destaca ainda que a data reúne “dois marcos indissociáveis”, sendo eles a referência cultural ligada à santa e o registro histórico da formação da identidade estadual.
O projeto agora segue para análise e tramitação nas comissões da Alesc antes de eventual votação em plenário. Caso seja aprovado, Santa Catarina terá quatro feriados em novembro, que já conta com três datas nacionais: Finados (2), Proclamação da República (15) e Consciência Negra (20).
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