Após mais de 25 anos de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia foi aprovado nesta sexta-feira, dia 9, pelo Conselho Europeu, por ampla maioria, criando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. A decisão contou com o apoio de 22 dos 27 Estados-membros do bloco europeu, superando o mínimo necessário de 15 votos.
O acordo prevê a eliminação de tarifas sobre aproximadamente 95% dos bens importados pela União Europeia, em diferentes prazos, ampliando de forma significativa o acesso de produtos sul-americanos ao mercado europeu. Ao mesmo tempo, o texto preserva instrumentos de política pública, garantindo espaço para ações em áreas como saúde, emprego, inovação, proteção ambiental, agricultura familiar e fortalecimento de pequenas e médias empresas.
Em nota conjunta, o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informaram que o Brasil saúda a decisão do Conselho Europeu. Os órgãos destacam que o acordo integra dois dos maiores blocos econômicos do mundo e representa o maior tratado comercial já negociado pelo Mercosul.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o avanço como um “dia histórico para o multilateralismo”. Em publicação nas redes sociais, Lula destacou que o acordo une dois blocos que, juntos, somam cerca de 718 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em US$ 22,4 trilhões.
De acordo com o presidente, o acordo amplia as alternativas para as exportações brasileiras, estimula investimentos produtivos europeus e simplifica regras comerciais para os dois lados. Para o presidente, trata-se de uma vitória do diálogo, da negociação e da cooperação entre países e blocos econômicos.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também ressaltou o caráter histórico da decisão. Segundo ela, a aprovação envia um sinal forte de que a Europa segue comprometida com o crescimento econômico, a geração de empregos e a defesa dos interesses de consumidores e empresas. Ursula afirmou ainda que deverá viajar ao Paraguai na próxima semana para ratificar o acordo com os países do Mercosul. O país assumiu em dezembro de 2025 a presidência rotativa pro tempore do bloco sul-americano.
Múltiplas dimensões
Para o Brasil, o acordo tem valor estratégico em diversas frentes. A União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do país, com corrente de comércio estimada em US$ 95,5 bilhões em 2024. A expectativa é de que o entendimento estimule investimentos, contribua para a modernização do parque industrial brasileiro e fortaleça a integração do país às cadeias globais de valor.
Além do pilar comercial, o tratado estabelece mecanismos permanentes de cooperação política e diálogo institucional, reafirmando compromissos com a democracia, os direitos humanos e o multilateralismo. Em um cenário internacional marcado pelo avanço do protecionismo, o acordo sinaliza a disposição dos dois blocos em fortalecer regras internacionais baseadas na previsibilidade e na cooperação.
Sustentabilidade e indústria
O texto também incorpora compromissos em comércio e desenvolvimento sustentável, conciliando a ampliação do intercâmbio econômico com a preservação ambiental e a promoção de padrões sociais elevados. Estão previstos mecanismos de reequilíbrio de concessões, que oferecem maior segurança jurídica aos exportadores do Mercosul diante de eventuais medidas internas da União Europeia.
O presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (ApexBrasil), Jorge Viana, destacou que mais de um terço das exportações brasileiras para a União Europeia é composto por produtos da indústria de processamento. Segundo ele, o acordo tem potencial para impulsionar a retomada da política industrial brasileira.
Entre os setores beneficiados estão máquinas e equipamentos de transporte, como motores, geradores de energia elétrica, autopeças e aviões, que terão redução imediata de tarifas. Também há oportunidades para os setores de couro e peles, pedras de cantaria, facas, lâminas e produtos químicos, além da redução gradual de tarifas sobre diversas commodities, sujeitas a cotas.
A cerimônia de assinatura do acordo deverá ocorrer em data e local a serem definidos em conjunto entre os países do Mercosul e a União Europeia.
Oeste MAis
