Com uma cuia de chimarrão sempre por perto, o caminhoneiro Edson Branco de Camargo, de 51 anos, transforma um hábito simples em companhia para enfrentar a rotina solitária das estradas. Morador de Xaxim, no Oeste catarinense, ele prepara a bebida ainda nas primeiras horas da manhã, antes mesmo de ligar o caminhão e seguir viagem. O rádio também se torna companhia, trazendo música para alegrar o dia e também o mantendo bem informado.
Na maioria das fotos que têm salvas no celular, o mate está presente nas mãos, ajudando a passar o tempo nas longas esperas e aquecendo os dias de frio intenso. Isso também ajuda a substituir outros hábitos como fumar e consumir bebidas alcoólicas, por exemplo, coisas que ele não faz questão, justamente por não gostar.
Com mais de 20 anos na profissão, Edson trabalha já há 12 na mesma empresa, transportando cargas frigorificadas para a Zeni, de Chapecó. Seu roteiro percorre a chamada linha Mercosul, passando por Brasil, Argentina, Chile, Peru, Bolívia e Uruguai. Na ida, leva carnes, já no retorno, costuma transportar frutas e peixes.
A saudade pesa mais que a carga
Se existe um desafio maior do que dirigir milhares de quilômetros, para Edson ficar longe da família é o maior de todos. As viagens costumam durar cerca de 30 dias. Sempre que consegue, faz uma rápida passagem por casa, mas admite que a distância nunca deixa de doer.
"A gente gostaria de estar em casa, perto da família, mas não é possível. No máximo, fico 15, 20 ou 30 dias fora. É difícil passar mais tempo sem voltar para casa".
Mesmo distante, ele evita contar todas as dificuldades que enfrenta para não preocupar quem ficou esperando seu retorno.
"Às vezes você fica doente, mas tem um compromisso e precisa seguir viagem. Se medicar e continuar. Muitas vezes a gente nem comenta com a família para não deixar eles preocupados".
Preso pela neve
Durante o inverno, a rotina muda completamente. Conforme o motorista, um dos trechos mais difíceis é a travessia da Cordilheira dos Andes, na fronteira entre Argentina e Chile. Quando as tempestades de neve chegam, centenas de caminhões ficam paradas por dias aguardando a liberação da estrada.
Foi exatamente essa situação que Edson enfrentou recentemente na aduana de Uspallata, próximo a Mendoza.
"Aqui já é cordilheira. Antes do túnel para atravessar para o Chile, a neve chegou a cerca de 4,5 metros de altura. A previsão era liberar a passagem só depois do dia 3 de agosto".
Enquanto espera, a estrutura é insuficiente para atender tantos motoristas. Segundo ele, cerca de 500 caminhões estavam concentrados no local, disputando espaço em um pequeno posto de combustível.
Confrme o caminhoneiro, os banheiros e chuveiros ficam lotados, preparar refeições se torna complicado e até respirar exige esforço.
"Ou você fica dentro do caminhão ou tenta se aquecer no posto de combustível. Mas é pequeno para tanta gente. Às vezes conseguimos tomar banho apenas uma vez por dia, ou até menos. Tem que se virar".
Além disso, o caminhão pode congelar, o combustível apresentar problemas e muitos veículos sequer conseguem sair do lugar para abastecer, relata o motorista.
"O inverno é terrível".
Do calor de São Paulo ao frio de -15°C
Em poucos dias, Edson passa por mudanças bruscas de temperatura. Segundo ele, não é raro sair de São Paulo enfrentando 35°C e, pouco tempo depois, dirigir em regiões onde os termômetros marcam até -15°C.
Por conta da oscilação de temperaturas, muitas vezes o motorista acaba enfrentando também problemas de saúde, como gripe. Mesmo com mal-estar e debilitado, precisa se medicar e não parar.
"Você tem um compromisso. Mesmo doente, precisa seguir", conta.
Outra forma de enfrentar a rotina é preparar a própria comida. O caminhão possui uma pequena cozinha adaptada, com fogão e geladeira, onde Edson cozinha durante as paradas. Além de economizar, cozinhar ajuda a ocupar o tempo durante as longas esperas.
Ele costuma fazer compras ainda no Brasil, mas precisa redobrar a atenção quando o destino é o Chile. O país possui uma rígida fiscalização sanitária e proíbe a entrada de alimentos de origem animal ou vegetal crus. Quem descumpre a regra pode receber multas que chegam a cerca de 350 dólares, segundo o caminhoneiro.
Pandemia
Edson relembra também as dificuldades enfrentadas durante a pandemia de Covid-19. Na época, os caminhoneiros não podiam sequer descer dos veículos em muitos postos de combustível. Para preparar refeições, muitos improvisavam fogareiros às margens das rodovias, enfrentando riscos e condições precárias.
Amor pela profissão
Apesar das dificuldades, ele diz que nunca pensou em abandonar a estrada, e que a profissão surgiu como oportunidade de oferecer uma vida melhor à família.
"O que motiva é que a gente vem de pouco estudo. É uma profissão que permite ganhar um salário um pouco melhor, mesmo tendo muitas despesas na estrada. Mas existe o amor pelo que fazemos e a vontade de dar uma condição melhor para a família".
No Dia do Colono e do Motorista, enquanto muitos celebram a data ao lado de quem ama, Edson talvez esteja novamente em algum trecho da Cordilheira, esperando a neve dar passagem.
Ainda assim, deixa um conselho para quem sonha em seguir a mesma profissão:
"Nunca desista de um sonho. A vida é curta demais para desistir".



