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Mãe de vítima da queda de avião critica ANAC: "Precisou 62 pessoas morrerem"

Mãe de vítima da queda de avião critica ANAC: "Precisou 62 pessoas morrerem"
Foto: Catve

A divulgação do relatório final sobre a queda do voo 2283, da Voepass, trouxe novamente à tona a dor e a indignação das famílias das 62 vítimas do acidente ocorrido em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, no interior de São Paulo.

Entre os familiares que acompanharam a apresentação das conclusões do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) está Adriana Ibba, mãe de Liz Ibba dos Santos, uma das vítimas da tragédia.

Para Adriana, o relatório aponta uma série de falhas sistêmicas na operação da companhia aérea. Entre os problemas identificados, ela destaca o que classificou como uma cultura organizacional inadequada, marcada pela falta de registros de panes e pela realização de procedimentos de manutenção sem a devida supervisão.

Segundo a mãe de Liz, a investigação mostrou que situações anormais teriam ocorrido em voos anteriores, mas não eram devidamente registradas pelas tripulações nos documentos de bordo ou comunicadas em solo. 

"Aconteciam fatores e a tripulação não registrava, nem no manual de bordo e nem em solo, para que houvesse, então, uma correção. Se não há registro, não tem o que corrigir."

O relatório do CENIPA analisou 1.206 voos realizados pela aeronave ATR-72-500 entre 2023 e a data do acidente. A investigação identificou, entre outros pontos, que cerca de 30% das aproximações ocorreram sem os critérios de estabilização previstos e que, em aproximadamente 50% dos voos analisados, um teste obrigatório após o pouso não era realizado.

Também foram apontadas fragilidades nos processos de manutenção, liberação de aeronaves em condições irregulares, problemas relacionados ao sistema de degelo e situações de manutenção sem supervisão.

Mãe critica atuação da ANAC

Outro ponto destacado por Adriana é a recomendação feita pelo CENIPA à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Para ela, o relatório evidencia que havia problemas identificados anteriormente em auditorias realizadas pela agência, mas que as irregularidades não resultaram em medidas consideradas suficientes para impedir a continuidade da operação.

"Então, fica nítido que houve ali uma falha de fiscalização, porque auditorias foram realizadas pela ANAC muito antes do dia 9 de agosto, e nessas auditorias ficou comprovado das irregularidades e da insegurança operacional da Voepass. Mas, mesmo assim, a agência não atuou, a agência não fez nada, não teve uma eficácia, não tomou uma atitude."

Na avaliação dela, a fiscalização deveria permitir que irregularidades identificadas durante auditorias resultassem em ações concretas, inclusive com a suspensão de operações quando houvesse risco à segurança.

"Então, precisou 62 pessoas morrerem para o CENIPA fazer uma recomendação para que a ANAC cumpra, de fato, o seu papel."

Relatório aponta sequência de falhas antes da queda

De acordo com as conclusões apresentadas pelo CENIPA, a aeronave apresentou uma nova falha no sistema de degelo durante o último pouso antes do acidente, mas o problema não foi registrado pela tripulação no diário de bordo. Com isso, a manutenção não teria sido informada sobre a ocorrência para que pudesse verificar o sistema.

A investigação também apontou uma prática recorrente de normalização de desvios, com pilotos e mecânicos deixando de reportar panes e falhas. O relatório identificou ainda situações de reutilização de componentes retirados de outras aeronaves, inclusive peças que já haviam apresentado problemas.

No voo que terminou na tragédia, a aeronave decolou com 10 itens registrados em condição MEL (Minimum Equipment List), procedimento que permite voos com determinados equipamentos inoperantes desde que os reparos sejam realizados dentro dos prazos estabelecidos. Entre eles estava o limpador de para-brisa, considerado relevante diante das condições meteorológicas enfrentadas naquele dia.

As gravações da cabine também foram analisadas pelos investigadores. Segundo o relatório, a tripulação deixou de executar alguns procedimentos previstos e não declarou emergência durante o voo.

Os 36 segundos finais foram considerados decisivos para o acidente. Nesse período, alertas sonoros foram emitidos, incluindo o aviso de aumento de velocidade, enquanto o sistema de proteção contra gelo foi acionado e desligado diversas vezes.

A investigação apontou que, embora os pilotos tivessem realizado os treinamentos exigidos pelas normas da aviação, as ações observadas durante o voo ficaram abaixo do nível de proficiência esperado.

Para as famílias, a apresentação do relatório representa uma etapa importante na busca por respostas sobre a tragédia, mas também reforça questionamentos sobre as falhas que ocorreram antes do acidente e sobre a responsabilidade dos diferentes setores envolvidos na segurança da aviação brasileira.

Catve

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