O futebol sempre foi sinônimo de paixão, emoção e rivalidade. É o esporte que reúne amigos, famílias e comunidades inteiras em torno de uma camisa, de uma seleção ou de uma história. No calor de uma partida, é natural a provocação, a brincadeira e até a famosa “corneta” entre torcedores. Isso faz parte do futebol e, quando há respeito, também faz parte da festa.
Mas há situações em que a rivalidade ultrapassa o limite da provocação saudável e passa a se transformar em desrespeito. Foi o que aconteceu na noite deste domingo, após a eliminação do Brasil para a Noruega por 2 a 1, pela Copa do Mundo. Um vídeo que circulou em grupos de WhatsApp mostrou uma criança queimando uma bandeira do Brasil, cena que causou indignação entre moradores da região de fronteira. Mais do que o ato em si, a imagem chama atenção por mostrar uma criança sendo exposta a um comportamento totalmente errado, crescendo em meio a um exemplo de intolerância e aprendendo, desde cedo, que rivalidade pode ser confundida com desrespeito.
Barracão, Dionísio Cerqueira e Bernardo de Irigoyen vivem uma realidade única, marcada pela convivência diária entre brasileiros e argentinos. Muitos brasileiros atravessam a fronteira para fazer compras na Argentina, enquanto muitos argentinos vêm ao Brasil para comprar, estudar, buscar atendimento médico, trabalhar e até morar. É uma relação construída na proximidade, no comércio, na amizade e no respeito entre povos vizinhos. Por isso, atitudes como essa causam ainda mais revolta em uma região onde a integração faz parte da rotina.
Durante a Copa do Mundo, como sempre acontece, a rivalidade entre brasileiros e argentinos ganhou as ruas. A cada vitória, carreatas, buzinaços e comemorações tomaram conta das cidades, em um clima de disputa que, até então, fazia parte do cenário esportivo. A provocação existe dos dois lados e, dentro da normalidade, pode até ser vista como algo típico do futebol.
No entanto, queimar a bandeira de um país não pode ser tratado como brincadeira. A bandeira nacional representa a identidade, a história e o povo de uma nação. Não se trata apenas de um pedaço de pano, mas de um símbolo que carrega o sentimento de milhões de pessoas. Transformar isso em alvo de deboche ou destruição é cruzar uma linha que jamais deveria ser ultrapassada.
O Brasil é o maior campeão da história das Copas do Mundo e carrega um peso gigantesco no futebol mundial. Mas, acima disso, merece respeito como nação. E o mesmo vale para qualquer outro país. A Argentina tem sua grandeza, é a atual campeã do mundo e segue como uma das favoritas ao título. Caso conquiste novamente a Copa, terá os méritos por aquilo que fizer dentro de campo. O que não se pode aceitar é que a rivalidade esportiva sirva de justificativa para ataques a símbolos nacionais.
A pergunta que fica é simples: isso era realmente necessário? Em uma região marcada pela convivência entre brasileiros e argentinos, onde a fronteira faz parte da rotina e da vida das pessoas, um ato como esse não representa apenas uma provocação contra a Seleção Brasileira. Representa uma falta de respeito com toda a população da trifronteira e com o povo brasileiro.
Rivalidade faz parte do futebol. Desrespeito, não.
Anderson Sommer / Portal Tri
